Entrevista a Afonso Oliveira.

Miguel Matos: O que é a International Perfume Bottle Association (IPBA)?

Afonso Oliveira: A IPBA é uma associação não-lucrativa de coleccionadores de frascos de perfume. A associação é americana e nasceu há 27 anos. A primeira reunião foi em Las Vegas e e a ideia principal partiu de Fran Peters e de mais cinco coleccionadores. Hoje em cada ano reúnem-se cerca de 200 a 300 sócios uma vez por ano em cidades diferentes dos EUA. Os sócios são sua maioria americanos, mas aparecem também pessoas da Europa. Debatemos temas sobre as colecções e as marcas de perfumes e realizamos sempre um leilão. Como o próprio nome indica, nós coleccionamos o frasco de perfume propriamente dito. A cartonagem é uma mais-valia e muitas vezes tem mais beleza do que o próprio frasco. Se o frasco estiver selado e tiver o perfume original é outra mais-valia. Como coleccionadores preocupamo-nos com o frasco, o seu design, a marca, a história. Em 2015 o nosso leilão rendeu mais de meio milhão de dólares e o frasco mais caro foi vendido por 60 mil dólares.

MM: O dinheiro realizado com este leilão reverte para a associação ou para os coleccionadores que participam?

AO: Uma parte do lucro do leilão é para a associação. É com esse dinheiro, com o dinheiro das quotas dos sócios e das entradas nos congressos que conseguimos manter um fundo para investir em investigação e compra de materiais. Em 2017 vamos ter um museu da associação em Chicago. Isto é importante porque a maior parte dos coleccionadores está na faixa etária dos 50/60 anos e chega-se a uma altura em que aparece a questão de para onde irão essas colecções. Hoje em dia com a ideia do museu, os sócios mais velhos podem doar as colecções à associação. Este ano um dos principais dealers e coleccionadores de Baccarat, George Stam,  ofereceu a colecção dele à vila de Baccarat em França.

MM: A próxima convenção será onde e quando?

AO: A última foi em South Carolina (Pittsburgh) no final de Abril. A próxima será também em final de Abril de 2016 em Portland, Oregon. Já temos programada também a convenção de 2017 que será realizada perto de Nova Iorque. Este ano haverá uma conferência sobre a história do erotismo na publicidade de perfumes desde o século XIX até ao presente e eu vou fazer uma apresentação sobre frascos de perfumes portugueses.

MM: Porque é que a associação tem o maior número de sócios e coleccionadores nos EUA?

AO: Durante a Segunda Guerra Mundial, na época do crash, a maior parte dos comerciantes franceses começou a exportar para os EUA porque a Europa era muito problemática. Então é por isso que hoje em dia encontramos muitas edições e muitos frascos de coisas que só foram exportadas para os EUA: Jean Patou, Houbigant, L.T. Piver, frascos Lalique… É incrível que num país como os EUA haja uma associação tão grande já com 2 mil associados. Temos duas associações locais que fazem parte da nossa, uma na Inglaterra e outra na Austrália. A minha ideia era ter mais associações ou então ter embaixadores em cada país. Por exemplo, em Madrid, Sevilha e Barcelona ter quem se ocupasse de informar-nos sobre feiras, sobre coleccionadores, certames… Para divulgarmos junto dos nossos associados.

MM: A Associação tem uma revista periódica…

AO: Sim, chama-se Perfume Bottle Quarterly e todos os membros a recebem e também têm a possibilidade de publicar as suas investigações e artigos. Eu já publiquei vários artigos sobre perfumes portugueses, por exemplo. Um dos que gostei mais de fazer foi sobre a história da marca espanhola Myrurgia. Queremos ter a revista também em formato digital para gastar menos papel.

MM: Mas a associação não se limita à revista e a eventos americanos. Também há atividade na Europa?

AO: Este ano houve uma convenção em Inglaterra e vieram à volta de 33 sócios dos EUA. Visitámos a Floris, o Harrods e todos os museus de frascos. Depois fomos a Paris onde visitámos Guerlain, Jean Patou, Baccarat, Lalique, Fragonard…

MM: Como é viver em Portugal e ser vice-presidente da IPBA? Imagino que num país onde não existe cultura de perfumaria toda a gente acha que você é maluco.

AO: Sim. O ano passado quando me convidaram para ser vice-presidente eu disse que não conseguia sozinho aqui e sem coleccionadores por perto. Mas Portugal não é o fim do mundo. Como membro activo e dinâmico que sempre fui, acharam que eu era a pessoa certa para desenvolver temas e dar visibilidade ao grupo. Hoje em dia sou responsável por uma página de Facebook chamada IPBA Members Interactive onde contacto com muita gente, partilhando informações e fotografias com muita gente em todo o mundo.

MM: Você já está no mundo da perfumaria há muitos anos, muito antes de começar a coleccionar.

AO: Comecei com 20 anos e tive uma perfumaria durante três anos. Depois fui trabalhar na Estée Lauder, mais tarde integrei a equipa da Marbert. Depois trabalhei com Montana e Germaine Monteil. Acabei por montar uma empresa de distribuição que lidava com as marcas Halston, Geoffrey Beene e Princess Marcella Borghese.. Neste momento estou, desde há 15 anos, na Aromas Internacionais, que representa as marcas Moschino, Versace, Salvatore Ferragamo, Tous, Jesus del Pozo, Ungaro, Jean Patou, Annick Goutal, etc

MM: Quando é que começou a colecionar?

AO: Só comecei a colecionar seriamente perfumes antigos a partir de 2008. Numa das minhas viagens a Cuba, um amigo ofereceu-me três frascos muito bons. Comecei a procurar na Internet e descobri então a IPBA. Esses frascos eram Merry Christmas da Benoit (um frasco dos mais coleccionáveis, que todos invejam ter), Le Golliwogg da Vigny e um perfume checo muito raro também.

Foi através da IPBA que eu obtive mais informações e tive o estímulo para colecionar através da nossa bibliotecária Helen Fransworth. Comecei a frequentar as feiras de antiguidades e velharias. Foi assim que descobri a perfumaria portuguesa, comprando tudo o que me aparecia de interessante. Também comecei a coleccionar caixas de pó de arroz que graficamente são lindíssimas. Só comecei a solidificar a história da perfumaria portuguesa quando iniciei uma pesquisa na hemeroteca em Lisboa.

MM: A perfumaria portuguesa hoje em dia é praticamente inexistente, mas já foi muito interessante. Como descobriu esta história?

AO: A partir da data de 1900 varri todas as publicações femininas onde apareciam as publicidades de perfumes de casas portuguesas. A Nally é a mais emblemática, com frascos lindíssimos produzidos em França. A fábrica mais antiga que encontrei em Portugal data de 1850, Thomás & Mendonça. Pertencente a um perfumista francês havia a Robert & Robert. Depois havia perfumarias com produção própria como a Elite, a Balsemão, a Mendonça, a Mimosa e a Rosa de Ouro.

Curiosamente, estas casas compravam as fórmulas a grandes perfumistas franceses como Delettrez. Havia coisas fabulosas. Os frascos eram muitas vezes importados, embora tivéssemos boas fábricas de vidro como a Vista Alegre, o Centro Vidraceiro do Norte, a Marinha Grande e a Fábrica das Gaivotas. Nós conseguimos manter a nossa indústria de perfumes até à Segunda Guerra Mundial. A partir daí começámos a ser invadidos por marcas estrangeiras. Muitas delas começaram a ser produzidas em Portugal nos anos 1960, como foi o caso de Dior, Rochas, Nina Ricci, Lancôme… As essências vinham puras para serem diluídas cá. Os frascos vinham à parte e eram enchidos cá. Muitos frascos eram também produzidos na Fábrica das Gaivotas. A Guerlain tinha moldes dessa fábrica, assim como a Rochas. Durante a Segunda Guerra Mundial também a Lalique tinha uma autorização para produzir na Marinha Grande os frascos comerciais menos importantes. Isto aconteceu sobretudo com frascos Lalique para a Worth que são made in Portugal. Aliás a primeira sucursal da Guerlain fora de França foi aberta em Portugal. Isto aconteceu até aos anos 80.

MM: Além da Nally há outra marca portuguesa que queira assinalar?

AO: A Couraça é uma das marcas portuguesas que mais acarinho. Durante muitos anos produziu um dentífrico e quando começou a dedicar-se aos perfumes, trazia um vendedor internacional para apresentar as essências. Esse vendedor era o senhor Jean Carles que vinha a Portugal vender as essências à Couraça.

MM: Neste momento encontra-se a escrever um livro sobre a história da perfumaria portuguesa.

AO: Tenho todas as bases, desde o espólio à documentação e é muito divertido porque eu nunca tive pressa em fazer este livro. Todos os meses encontro novas informações. Mesmo que lance o livro agora, vou ficar sempre com falhas pois aparecem sempre coisas novas.

MM: Quais são as suas ambições futuras como coleccionador e como vice-presidente da IPBA?

AO: Como coleccionador quero organizar, catalogar e editar em livro a história da perfumaria portuguesa. Como vice-presidente da IPBA quero desenvolver mais projectos que dêem mais visibilidade à associação e que possam angariar mais sócios. Estamos a desenvolver um projecto em que as pessoas que têm ou herdaram um frasco que vem de geração e geração, podem pedir-nos uma avaliação. Nós incentivamos a colecção ou orientamos a venda para coleccionadores que possam estar interessados em comprar. No nosso museu virtual há cada vez mais informação e agora acrescentámos a categoria de efémera, que consiste em tudo o que tenha a ver com papel: publicidade, revistas, etc.

A International Perfume Bottle Asociation está aberta a associados de todo o mundo que por uma quota anual bem acessível podem ter acesso às publicações e congressos por ela organizados. É um mundo de aficionados e apaixonados que pode ser o passo seguinte de todo o coleccionador para a partilha de experiências.

 

Entrevista levada a cabo por Miguel Matos, em nome da Fragrantica (www.fragrantica.com), com a autorização do entrevistado.

Foto: José Luis Teixeira

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