“No.5 L’ Eau”. Chanel, 2016.

Classificação: 18 valores (em 20).

Família Olfactiva: Aldeído Floral.

Le Nez: Oliver Polge.

You Know Me and You Don’t (“Conheces-me mas não me conheces”). O lançamento de um Chanel é sempre um momento em que todo o mundo da perfumaria, por uns dias ou semanas, entra em suspenso: estamos a falar da mais icónica marca de perfumes do Mundo e, talvez, a marca economicamente mais valiosa do ramo da perfumaria; ora o lançamento não de um Chanel “qualquer” mas a reinterpretação do mítico No.5 é um marco que, para além de histórico, é verdadeiramente simbólico e ao qual nenhum agente deste meio é indiferente.

Uma revisão sobre o No.5 é, por si só, o momento último ou o zénite do pensamento do crítico de perfumaria dado que é neste perfume que, simbolicamente, se fala no início da perfumaria moderna. Imagine-se o que tremi só de pensar que terei de escrever uma revisão crítica de uma reinterpretação do No.5 quando não me sinto minimamente preparado, em termos académicos, para o fazer. Isto não é falsa modéstia, é uma postura de humilhação perante um monumento artístico, com raízes culturais profundas e um carácter histórico como o No.5.

A casa Chanel sempre foi – pelo menos no âmbito da perfumaria – um templo de inovação e rupturas; o caso mais exemplificativo ocorreu desde logo, em 1921, quando lançaram o primeiro perfume aldeído (aldeídos são compostos sintéticos criados para substituir os ingredientes naturais), não com um nome sonante ou com um slogan com um grande impacto. Chamava-se No.5. Ainda assim a marca nunca perdeu os seus valores (os frascos, por exemplo, seguem apenas meia dúzia de modelos…). O frasco do No.5 L’Eau é igual ao original.

Uma primeira abordagem à fragrância do No.5 L’Eau deu-me a sensação que estava perante uma adaptação de uma fórmula já quase centenária aos tempos de hoje e, sobretudo, aos consumidores de hoje; o aroma é muito mais suave, mais primaveril e aquático e, além disso, mais jovial. Julgo que a intenção de Oliver Polge era essa e o próprio descreve-o, numa entrevista à Revista Activa, como uma versão “mais fresca” do original, sem perder a sua memória, pensada como “uma colónia, na direcção dos citrinos”.

A perfumaria, em quase cem anos, mudou bastante, os ingredientes “populares” na altura deram lugar a outros, como o caso dos citrinos (principalmente nas versões de Verão e nas eau de cologne), do cedro e muitas outras. Nesse sentido julgo que é importante reparar como Oliver Polge conseguiu criar, ao nível da fragrância, uma versão contemporânea do No.5, pois o peso dos acordes florais é muito idêntico entre as duas versões e, todavia, consegue-se claramente despistar uma leveza e pureza primaveril do No.5 L’Eau, sem perder a sua identidade (o uso de aldeídos e, curiosamente, o acorde especial de “Rosa Maio”); uma explosão controlada de tons florais na pele que nos transporta para um campo cheio de flores a desabrochar!

Qualquer reinterpretação enfrenta um desafio: como dar a conhecer aos meus clientes um produto que eles acham que já conhecem? O mote deste perfume, you know me and you don’t, é, para mim, um golpe de genialidade. A capacidade da Chanel em interpelar os seus consumidores a experimentar um perfume que acham que conhecem mas, na verdade, não conhecem, é muito bem colocada em poucas palavras. Além disso julgo que o lançamento deste perfume tem um alvo muito específico: os Millenials, a geração de homens e mulheres sem complexos, vulneráveis e com muita força de espírito, ao mesmo tempo, uma geração que vive bem com os paradoxos e as contradições destes tempos.

O frasco, a embalagem e a publicidade – alicerces sobre os quais, juntamente com a fragrância, se constrói uma obra de arte em perfumaria – serão objecto de outra análise da minha parte, numa próxima ocasião. É impossível falar de tudo em poucas palavras!

Notas de Topo: Lima, Bergamota, Neroli, Laranja, Aldeídos (vários) e Limão.

Notas de Fundo: Jasmim, Ylang-Ylang e Rosa “Maio”.

Notas de Coração: Raiz de Lírio, Baunilha, Almíscar Branco e Cedro.

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